O risco não é teórico: quatro casos em que a dependência tecnológica virou crise
Kaspersky nos EUA e na Lituânia, Huawei no Reino Unido, TikTok nos EUA. Quatro casos em que depender de tecnologia estrangeira deixou de ser hipótese e virou decisão geopolítica.
A dependência já cobrou a conta
O risco de depender de tecnologia estrangeira costuma ser tratado como hipótese distante. Não é. Nos últimos anos, vários países viram produtos de segurança e infraestrutura amplamente usados se tornarem indisponíveis, banidos ou forçados a mudar de dono, por decisão política. Quatro casos ilustram bem o que está em jogo.
Kaspersky: de padrão de mercado a produto banido
A Kaspersky era um dos antivírus mais usados do mundo. Em 2017, o governo dos Estados Unidos proibiu seus produtos nas redes federais, alegando risco de acesso do governo russo. Em 2024, o Departamento de Comércio foi além e proibiu a venda do software no país; as atualizações para clientes americanos foram cortadas meses depois. Um produto de segurança que milhões usavam simplesmente deixou de estar disponível.
A Lituânia havia chegado à mesma conclusão antes: em 2017, classificou o software como ameaça e ordenou sua remoção dos computadores que gerenciavam infraestrutura crítica. A empresa negou as acusações. O ponto não é a culpa: é que a continuidade de uma ferramenta de defesa passou a depender de uma decisão geopolítica, não do contrato.
Huawei: o 5G desmontado no Reino Unido
Em 2020, o Reino Unido reverteu sua posição e baniu equipamentos 5G da Huawei. As operadoras foram proibidas de comprar novos equipamentos a partir do fim daquele ano e obrigadas a remover todo o 5G da Huawei já instalado até 2027. A decisão veio depois de o órgão britânico de segurança cibernética reavaliar o risco, em parte por causa de sanções que afetavam a cadeia de fornecimento de chips da empresa.
O resultado é o custo concreto da dependência: arrancar e substituir infraestrutura crítica já em operação, com atraso e despesa bilionária. Quando o fornecedor de um componente essencial sai da equação, a conta da migração é sua.
TikTok: dados, jurisdição e um apagão de horas
O caso do TikTok moveu a discussão de ataque para jurisdição de dados. Preocupado com o controle da ByteDance e com onde os dados de americanos eram processados, o Congresso dos EUA aprovou, em 2024, uma lei que obrigava a venda da operação americana sob pena de banimento. A Suprema Corte manteve a lei no início de 2025, e o aplicativo chegou a ficar fora do ar para usuários americanos por algumas horas antes de ser restabelecido.
Mesmo sem a exploração de nenhuma vulnerabilidade, um serviço usado por dezenas de milhões parou, porque a jurisdição sobre os dados e o controle da empresa estavam fora do país.
O padrão por trás dos casos
São setores e tecnologias diferentes, mas o mecanismo é o mesmo:
- Disponibilidade não é garantida: um produto essencial pode ser cortado por decisão de um governo, não do fornecedor.
- Jurisdição importa: onde os dados são processados e quem controla a empresa determinam quem manda no seu risco.
- Geopolítica passa por cima do contrato: nenhum SLA protege contra sanção, lei ou crise diplomática.
- Substituir sai caro: arrancar e trocar infraestrutura em operação custa tempo e dinheiro que ninguém orçou.
- A decisão é de outro: em todos os casos, quem definiu o destino da tecnologia não foi quem dependia dela.
O que isso ensina ao Brasil
Nenhum desses países agiu por rejeição a tecnologia estrangeira. Agiu porque não podia aceitar que uma capacidade crítica ficasse fora do seu controle. Estados Unidos, Reino Unido e Lituânia tinham recursos e alternativas para reagir. A pergunta incômoda é: o Brasil, que importa a maior parte da tecnologia que sustenta sua defesa cibernética, reagiria a tempo?
O risco não é a maldade de um fornecedor. É depender de uma decisão que você não controla.
A lição não é banir ninguém. É saber, com clareza, quais dependências são aceitáveis e quais representam risco estratégico, e construir capacidade nacional antes de precisar dela. Porque, como esses quatro casos mostram, quando a conta chega, ela chega rápido.


